sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O poeta encantou-se! - Fátima Teles

14 de novembro de 2014 - 14h50

Fátima Teles: O poeta encantou-se!

O Poeta Manoel de Barros encantou-se nesta quinta-feira (13), numa manhã ensolarada de novembro, primavera de 2014. Nada mais justo para o poeta que amou a natureza partir na estação mais representativa da vida, do amor e da beleza na sua essência, a primavera, de tantas flores, folhas e cores. A voz calou-se e as mãos pararam de escrever. O espírito agora sobrevoa as orbes espirituais, eternizando-se na Terra pela memória, leitura e literatura brasileira.

Por Fátima Teles*, para o Vermelho


Reprodução
Ilustração de Manoel de Barros Ilustração de Manoel de Barros
Manoel de Barros nasceu no estado de Mato Grosso. Viveu entre as matas do Pantanal, os rios, as chapadas, a fauna, em diálogo poético com toda a riqueza da biodiversidade que estava em sua volta.

O poeta era um homem sensível e simples. Observava as formigas, analisava a sabedoria da água, a resistência das pedras e o ensinamento das folhas, das árvores. Conversava com os pássaros e por isso vez por outra amanhecia passarinho, com gosto de liberdade.

Foi amando e escrevendo as coisas “desinteressantes”, por ele chamadas, que o poeta tornou-se um dos maiores expoentes da poesia contemporânea no Brasil.

No poema Aprendimentos, Manoel de Barros vai escrevendo o que aprendeu com os filósofos. O trecho mais belo do poema está nestas linhas: “Aprendeu que as folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes”.

Quanta profundidade numa frase, nos levando para uma reflexão sobre a vida, a partir da observação da própria natureza que nos rodeia. Todos nós estamos aqui na Terra como aprendizes em evolução e as experiências são necessárias para o nosso crescimento. Os dissabores, as perdas, as quedas, são comparadas às folhas que caem. Atropelos. indispensáveis para o nosso fortalecimento, resistência e aprendizado, nos ensinando a cair sem alarde, a cair com elegância, silêncio e aceitação para uma reavaliação e refazimento de nossas forças na certeza de recomeçarmos melhores e com mais sabedoria.

O menino e o poeta eram um só e viveram a vida em contato com a beleza exuberante do pantanal, com os pés na terra, sentindo o cheiro do chão, vendo a água da chuva escorrer pela telha, entre o canto do galo , dos pássaros e o mugido das vacas ao amanhecer. E quando a noite vinha o poeta dizia que os vagalumes serviam para iluminar as trevas. ”São milhares de pingos de luz que tentam cobrir o escuro”.

Essa frase impele mais um ensinamento: o de ser luz em um mundo que insiste em viver no escuro. O ensinamento de levar luz através do sorriso, do olhar, do cumprimento, do ouvir (coisa já tão esquecida e desvalorizada entre nós seres “humanos”), do falar, do conviver e do relacionar-se.

E o mestre vai ensinando-nos pelos versos mais simples de sua escrita.(...)” Sou água que corre entre pedras: Liberdade caça jeito”.

A água que busca desviar as pedras, os obstáculos que a natureza lhe impõe. Caça jeito para passar e exercer sua liberdade, cumprindo sua missão, seu ciclo.

Nós ainda não aprendemos a contornar aquilo que acreditamos que nos impede de crescer. A natureza nos ensina que há possibilidade de cumprir a nossa tarefa mesmo com as intempéries e tempestades que nos abraçam ao longo do caminho existencial. Tudo é uma questão de sabedoria, mas nós estamos sempre muito apressados(as). O nosso imediatismo nos fez perder a nossa capacidade de percepção e reflexão, adquiridas com a sensibilidade da alma.

Que a poesia nos salve!
Salve o poeta!
Manoel de Barros, presente!


*É assistente Social

Referências

http://www.cartafundamental.com.br/single/show/214/a-poesia-infancia-da-lingua
http://www.releituras.com/manoeldebarros_bio.asp
http://www.revistabula.com/2680-os-10-melhores-poemas-de-manoel-de-barros/


Fonte : 
 http://www.vermelho.org.br/noticia/253515-11

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